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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O que leva uma criança a entrar pro tráfico de drogas


Começo aqui mais um tipo de assunto para o blog, "Mundo policial", onde contarei alguns casos e curiosidades do mundo policial, as suas alegrias, medo e frustrações. Um lado que vcs não conhecem sobre a polícia e seu dia-a-dia e só quem está desse lado sabe como é.
Abaixo vc entenderá o que leva uma criança a entrar para o tráfico. A história é real, mudando apenas alguns detalhes, porém, todo policial já deve ter presenciado. O nome da história é "Crianças ainda jogam bola".



Verão de 1990, Rio de Janeiro


Expedito e Maria estavam felizes

Maria Acabava de dar a luz ao seu primeiro filho dos 4 que ainda estavam por vir. Seu nome era Luiz Cláudio. Ainda pequeno, ganhou o apelido de Pixô. Muito pobres e morando numa favela, ambos tinham que trabalhar fora pra sustentar a si próprios e ao filho.
Deixavam o pequeno Pixô com uma Tia alcóolatra pois não tinham alternativa: ou trabalham ou passavam fome.

O menino cresceu sem a atenção dos pais, viveu no meio da sujeira, da cachaça e da falta de carinho. Não tinha nem televisão.
Seus heróis eram os traficantes que passavam ao lado do barraco onde vivia, armados e drogados.
As crianças da favela são felizes. As vezes até mais do que um filhinho de papai. Sabem se divertir com o pouco que tem.
Dão valor a tudo. É só alguém aparecer com uma bola e a diversão está garantida por horas.
Enquanto outras crianças pensavam em ser jogador de futebol, ele (Pixô) sonhava em ser o dono da boca. "Brincava" de polícia e bandido. Sempre escolhia ser o bandido. Adorava matar, mesmo sendo tudo de mentira.
Aos 12 anos foi convidado pra ser "olheiro" da boca. Ele disse: "Já é!"... e não conteve a alegria. Parecia que estava sendo convocado para o primeiro treino de um grande clube. Lhe deram uma caixa de fogos. E disseram: "Se vacilar, morre!". Era malandro e bem esperto pra idade. Não vacilava. Os "canas" (polícia) entravam na favela, e Pixô soltava um "12x1".
Não falhava nenhuma vez. Passou a trabalhar com um rádio. Estava ganhando a confiança do gerente. De presente ganhou umas trouxinhas de maconha.
Foi correndo pro mato, aprontou o "baseado" como se tivesse intimidade com a droga, e conheceu um de seus primeiros vícios. Viciou de imediato. Não queria nem mais receber os R$70,00 semanais que recebia pelo trabalho de olheiro. Só queria saber da droga.
Aos 14 anos, lhe deram um saco de "pó de 10" (Cocaína no valor de R$10,00) pra vender.Tinha talento pra coisa. Enquanto uma "carga" era vendida em 1 dia pelos outros "vapores" da boca, Pixô vendia a sua em 3 horas.
Num final de tarde quente, Pixô se depara com uma guarnição da PM num dos becos e corre. Corre muito mesmo, dando tempo até de tirar o saco de pó de dentro da cueca jogando num quintal de uma dona. Mas o cerco era bem feito e Pixô foi pego. Pressionado a dizer onde estava a sua "carga" e a apontar o esconderijo dos demais traficantes, Pixô se negou a dizer. Mesmo franzino e com aparência bem inferior do que aparentava. Mesmo depois de uma surra, não disse nada, não chorou, não "caguetou".
Os PMs o levaram até a DP. Mas ele não ficou nem detido. Sua Mãe foi chamada até a delegacia. Foi um choque pra ela.
Nem diante dela, ele entregou os amigos. Foi solto no mesmo dia. Pixô foi levado até ao Chefe da boca pelos traficantes como herói. Ganhou moral. Mesmo pequeno, magro e novo, não se deixou esmorecer, não entregou os "irmãos".
A ele foi passado a gerência da maconha. Pixô agora era "gerente", gerente da maconha. Ganhou uma Glock 45. E lhe foi dada a moral de "quebrar" (matar) qualquer "vacilão" da boca. Na primeira semana, já tinha matado 3 traficantes que estavam "batizando o pó" (misturando fermento a cocaína para render) e vendendo o restante numa outra parte da favela.
Ganhou fama. O seu nome passava medo. O dinheiro aparecia como água. De R$70,00 semanais, passou a ganhar R$3500,00.
O dinheiro era fácil mesmo...vinha rápido. Mas ia embora mais rápido ainda.
Drogas e putas, comiam tudo. Não ajudava sua Mãe em casa.
Aos 15 anos "rodou" pela primeira vez. Foi pego pela PM num barraco armado e com grande quantidade de maconha, junto com uma de suas namoradas. A garota foi presa também. Foi autuada por tráfico. Ele nem se importou. Era de menor e estaria em liberdade em 6 meses. E em relação a garota? Tinha mais 10 mulheres por toda a favela. Ela se fudeu, era de maior. Pegou 6 anos.
Pixô, Foi ao inferno. O inferno se chamava Instituto Padre Severino. Um lugar pior do que qualquer cadeia pra adulto, apesar de ser para menores infratores.
Lá dentro chegou de marra. Chegou metendo bronca de gerente ali. Na primeira noite a marra acabou. Abusaram de seu corpo. O violentaram durante toda a noite. Durante 1 semana. Se ouvia os seus gritos pelas frestas da cela. Mas ninguém aparecia pra ajudá-lo.
Quando de dentro de Bangu 1, veio a ordem para deixá-lo em paz. Aprendeu a odiar. Queria matar. Jurou vingança.
Seis meses depois estava solto. No mesmo dia voltou pra boca e passou a ser um dos "frentes" do morro. Tudo estava com ele. Mandava em todos. Guardava os armamentos mais pesados.
Num dia de Outono, armado de fuzil, ouviu no seu rádio que tava "Lombrado" (tinha gente entrando na favela). O caveirão estava subindo.
Disse que não iria recuar. Trocou tiro durante 15 minutos, quando uma bala varou seu crânio. Foi levado pra viatura num carrinho de mão, como costumava a fazer com suas vítimas.
O seu corpo foi enterrado no dia seguinte. Sua mãe chorava muito.É uma dor muito forte pra uma mãe enterrar seu filho. O certo seria o contrário. É da natureza.
No dia seguinte, colocaram outro em seu lugar. Mais um "frente". E pixaram no muro da favela a frase "Pixô, saudades!". Alguns de seus amigos ainda moram por lá. Alguns estão presos. A maioria morreu. Mas nem tudo na favela mudou. A toda hora nascem outros "Luiz Cláudio". Vários pais de família tem de trabalhar e deixar seus filhos ao destino da sorte. Porém, crianças ainda jogam bola.
e tentam ser alguém na vida.
Texto escrito por mataleone

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